Pardal Negro
Traduzido por Andréa Batista Rodrigues
Uma troca fatal de malas na Cidade Luz
Um assassino contratado e a jovem Uzma Rafiq embarcam no mesmo voo de Heathrow para Paris, cada um viajando por razões muito diferentes. Uzma espera começar uma nova vida com o seu amante francês, enquanto o outro passageiro chega à cidade com um assassinato em mente. Mas, quando as malas idênticas dos dois são trocadas por engano no aeroporto, os seus caminhos ficam perigosamente entrelaçados.
Tendo Paris como cenário envolvente, Black Sparrow, de A.J. Griffiths, é um thriller tenso sobre amor, assassinato e segredos mortais, repleto de reviravoltas inesperadas, à medida que dois desconhecidos veem os seus destinos tornarem-se subitamente — e fatalmente — ligados.
Descubra Black Sparrow e acompanhe uma viagem em que um simples engano pode custar tudo.
Trecho do livro
Observando o meu reflexo na janela do ônibus, mal reconheço os olhos escuros que me olhavam de volta. Eles pareciam como poços de água, sem fundo e frios. Onde está a minha alma? Perdi toda a emoção? É difícil acreditar que tenho apenas quarenta anos e no que chamam de “o auge da minha vida”. Há alguns sinais de cansaço no meu rosto, linhas pelos cantos dos meus olhos – pés de corvo como imagino que os ingleses lhes chamariam – mas não tenho nem o dinheiro nem a inclinação para comprar cremes caros e tentar impedi-los de aparecerem em mim. O meu cabelo perdeu o brilho e há alguns fios brancos despontando por baixo do meu lenço de poliéster, como uma antiga fiação.
Joguei a cabeça para trás, em parte porque não suporto me ver, mas também por causa da parada de ônibus que significa mais passageiros amontoando-se dentro do veículo de dois andares.
Não me importo em usar transportes públicos, é a única maneira de eu ter mobilidade, mas às vezes o calor e o espaço cheio me fazem sentir mal. Há um odor no ônibus hoje, de casacos anoraks sem lavar e suor misturado com cigarros velhos e comida gordurosa, nem um pouco agradável.
Eu tive uma tarde muito prazerosa conversando com a Shazia, que sempre tem um grande interesse no que eu tenho feito, mas o nosso chá durou muito tempo e agora eu me encontro correndo para casa para preparar o jantar da minha família. Não me atrevo a chegar tarde, o meu marido diria alguma coisa se eu chegasse.
Enquanto o ônibus faz uma curva acentuada na rua Kilburn High, eu agarro o corrimão do assento na minha frente, acidentalmente passando os meus dedos pelo capuz de pele de uma adolescente que se vira bruscamente e resmunga algo bem baixinho na minha direção. Depois de 22 anos vivendo neste país, ainda não me habituei. As pessoas não são tão amigáveis quanto na minha terra natal, o Paquistão. Sim, ainda penso nele como a minha casa; afinal, é a minha pátria, o lugar onde nasci e cresci, um lugar repleto de história rica e religião. Mas tenho uma boa vida aqui. Eu vivo em uma casa confortável com modernas comodidades, tenho dois filhos inteligentes e bonitos e um marido com um bom emprego. Ele é um homem difícil, mas somos casados e eu estou atada a ele.
"Dia cheio hoje, não é, querida?"
Uma senhora idosa ao meu lado, espreitava com expectativa, querendo uma resposta.
"Sim, muito cheio", digo a ela, querendo cortar logo o assunto, afinal, não a conheço.
"Vai para longe?", ela insiste, tocando meu braço com suas perfeitas unhas vermelhas enquanto me oferece balas de mentas de um pacote aberto.
"Não, obrigado. Só mais três paradas", digo eu, arrumando a pesada bolsa de compras no meu colo, que está me espetando como alfinetes e agulhas nas coxas. Eu comeria uma jujuba se ela tivesse, não uma bala de menta.





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