Uma Filha da Guerra
Traduzido por Gabriel Svreis
Uma Criança da Guerra: Do Trauma e da Escuridão à Cura
As feridas mais profundas da guerra nem sempre são visíveis. Neste poderoso livro de memórias, Ewa Reid-Hammer reflete sobre como o trauma infantil, o sofrimento familiar e as consequências do conflito moldaram a sua identidade e a acompanharam até à vida adulta. Ao atravessar o medo, a raiva, a depressão, a negação e a recuperação, a autora explora o que significa recordar o passado sem permitir que ele defina o presente. A sua jornada do horror à cura oferece um relato honesto sobre sobrevivência, autoconhecimento e a busca de um novo sentido para a vida após o trauma.
Descubra uma história profundamente pessoal de memória, recuperação e transformação.
Trecho do livro
As pessoas precisam de certas coisas que lhes garantam um alicerce e estabilidade psicológicas. Perda de amor, paz, sentimentos de segurança ou a própria casa causam trauma. Trauma deixa cicatrizes.
No meu caso, tudo isso se foi.
No outono de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. Nasci três anos depois, na Varsóvia ocupada pelos nazistas. Meus pais e familiares ficavam na época em um grande prédio que pertencia a meus avós no coração da capital. Antes da guerra, meus avós o usavam como um pied-à-terre , onde ficavam quando tinham negócios na cidade, ou para eventos sociais no inverno. O resto do tempo, eles residiam em sua propriedade de quatro mil acres, a cerca de noventa e cinco quilômetros da cidade, que nos dias pré-guerra de carruagens a cavalo era uma longa viagem. Na propriedade estavam a plantação e a fábrica de açúcar de beterraba do meu avô. Quatrocentos acres de bosques e parques cercavam um pequeno casarão de vinte e oito quartos e um lago. Lá, minha avó presidia funcionários, familiares e crianças. Foi lá onde meu pai cresceu com seu irmão mais novo e três irmãs.
Já no tempo em que nasci, o mundo da infância deles fora tomado pelos invasores e minha família tinha se estabelecido em Varsóvia. Foi-se o poder e o controle que meu avô, um rico proprietário de terras e industrialista, exercia antes da guerra. Foi-se o estilo de vida livre e fácil de que ele e a família haviam desfrutado. A vida inteira deles era agora delimitada por toques de recolher noturnos e ameaçada por blitz aleatórias, prisões e execuções. O vô foi forçado pelos alemães a continuar supervisionando a produção de açúcar de sua fábrica e obrigado a enviar por ferrovia todo o produto para o exército alemão. Eles não sabiam que ele fazia a sua parte para a resistência, lhes extraviando toda quarta saca. O açúcar era uma mercadoria escassa e valiosa durante a ocupação e poderia ser facilmente vendido no mercado clandestino, o dinheiro destinado à compra de armas para o exército clandestino. A descoberta desse ato — subversivo— significava morte instantânea para o meu avô e seus assistentes.
Agora, todos eles residiam permanentemente no prédio da família em Varsóvia. O grande apartamento no térreo era ocupado por meus avós e seus colaboradores. Toda a família costumava fazer refeições juntas em sua sala de jantar. Por conta do toque de recolher noturno, era difícil e perigoso se aventurar, então eles passavam as noites conversando e jogando cartas. O segundo andar continha várias quitinetes pequenas usadas por meu pai e seus irmãos. Na época do meu nascimento, meus pais ainda moravam no apartamento agora apertado. Não havia espaço para mim, então fui enviada com minha babá para o terceiro andar onde minha avó materna morava. Embora ela não gostasse de crianças pequenas, achando-as um incômodo barulhento, como não havia outro lugar conveniente, a vó concordou em nos deixar morar lá.





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