Um Quadrado Perfeito
Traduzido por Marcia Brando
Dois Continentes. Duas Famílias. Um Segredo Sombrio.
Quando a pianista Ginny regressa à casa da sua excêntrica mãe, uma artista que vive nas montanhas Dandenong, na Austrália, está determinada a descobrir a verdade sobre o desaparecimento do pai — e sobre a razão pela qual a mãe a levou consigo quando era criança. A colaboração tensa entre ambas numa exposição de pinturas e canções começa, pouco a pouco, a trazer à tona memórias há muito enterradas.
Do outro lado do mundo, nos arredores de Dartmoor, a artista Judith procura consolo ao pintar paisagens do interior australiano, enquanto a sua filha problemática, Madeleine, regressa a casa e abala o frágil equilíbrio das suas vidas.
Combinando mistério familiar, criatividade, história da arte e ocultismo, A Perfect Square explora o poder da arte para curar, revelar e perturbar.
Trecho do livro
Que 12 significava conclusão não estava em debate. Elas conheciam a simbologia. Deixando de lado os Imãs, os Apóstolos e as Tribos com a preocupação de cada um deles, mãe e filha por sua vez, estavam com os 12 signos do zodíaco e as 12 notas na escala cromática. Porém, todas as coisas terminaram às 12 e Harriet se sentiu indisposta com a contenção que o número sugeria. Como se por ele o cosmos tivesse alcançado seu limite de emanação e, devidamente saciado, excluiu o 13, um número condenado para todo o sempre a existir como um mero doze–mais–um.
Seu olhar deslizou do piano mecânico para seu colo, um tranquilizante verde escuro, e ela descobriu que era capaz de se libertar de suas reflexões, pelo menos por um breve momento. Pois Harriet Brassington-Smythe era capaz de fazer muita leitura da vida quando não havia muito para ser lido. O acaso se hospedava em sua imaginação, cheio de significados. Ela via arco-íris de cor quando não havia nada para os outros senão tons de cinza. Sua missão, para a qual era tão zelosa, era a de manifestar através de sua arte essa percepção única como se ela, entre poucos especiais, estivesse a par dos segredos internos da natureza. Não foi um zelo completamente infundado; a única vez que ignorou as cores da sua percepção em que se encontrou e não a carne de sua carne, um perigo imenso, foi quando finalmente sintonizou e viu o brilho acentuado de iridescências negras, ficando tão alarmada que juntou seus itens essenciais, as ferramentas de seu negócio, sua filha, e fugiu.
Isso tinha sido há muito tempo e seria muito melhor se fosse esquecido, ela preferia nunca ter falado do evento para sua filha.
Harriet estava em sua vida ideal e em excelente forma. Seu rosto longo e esculpido, inabalável pelas adversidades da idade, tinha se desenvolvido em suas virtudes com grandes olhos na parte mais escura do castanho e uma boca ao mesmo tempo vivaz e imponente, com o lábio inferior saliente, um pouco além de sua contraparte, capaz tanto de fazer beiço quanto um sorriso extravagante. Sua fisionomia toda era realçada por uma vasta cabeleira preta ondulada, que brilhava com a luz do sol, sem um lampejo prateado para ser visto. Era uma mulher notável, enfeitada como gostava de ficar, com um vestido vintage dos anos 20, até a altura da panturrilha. Ela tinha assumido a aparência de viúva com uma presença imponente, talvez desmotivando a todos com exceção dos mais corajosos.
Ao longo dos anos atraiu alguns amantes, mas desde que sua única paixão azedou, ela permaneceu solteira. Levava uma vida reclusa, que disponibilizou solo fértil e ligeiramente ácido para sua excentricidade florescer como uma azaleia. Mas a singularidade era uma qualidade que reservava para suas amigas, as duas mulheres com as quais ela dividia a maior parte de seu tempo, as perenes Rosa Spears e Penélope Ashworth. Juntas, as três eram fortes e por décadas permaneceram no mesmo canteiro do jardim, contra a mesma parede de pedra da tradição pessoal, aproveitando os confortos da umidade e da sombra.





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